Salão Paroquial encheu-se para uma sessão que
reuniu historiadores, médicos, representantes institucionais e população em
torno da memória da epidemia que marcou a história da vila.
Loriga, 3 de agosto de 2026 – O Salão Paroquial de Loriga registou uma
expressiva afluência de público para a apresentação da obra O Inverno do
Tifo – Loriga 1927, da autoria do jurista e investigador Dr. J. da
Silva Amaro, num encontro que constituiu simultaneamente uma evocação
histórica, uma reflexão científica e um tributo às vítimas da epidemia de tifo
exantemático que assolou a vila durante o inverno de 1927.
A sessão reuniu diversas personalidades ligadas à
história, à medicina, à cultura e às instituições locais, refletindo a
relevância que o tema continua a assumir quase um século depois dos
acontecimentos.
O painel foi composto pela historiadora Dra.
Lucía Moura, pelo médico da vila, Dr. Nolasco, pelo Eng.
Eduardo Ambrósio, da AAIS (Associação de Arte e Imagem de Seia, pelo Dr. Moura Brito, pelo
Presidente da Junta de Freguesia de Loriga, Luís Costa, pelo Presidente
do Conselho de Administração da Fundação Cardoso de Moura, Rodrigo Amaro,
pela Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Seia, Dra. Teresa Pereira,
encerrando a sessão com a intervenção do autor.
Nas palavras de abertura foi destacada a
importância da preservação da memória histórica de Loriga e do papel que a
investigação desempenha na compreensão dos acontecimentos que marcaram
profundamente a identidade da comunidade.
Um dos momentos mais relevantes da sessão foi a
intervenção do Dr. Nolasco, que conduziu a assistência numa viagem
ao conhecimento médico da época. Explicou a natureza do tifo exantemático, a
sua forma de propagação, as enormes limitações dos cuidados de saúde existentes
na década de 1920 e o elevado número de vítimas provocado por uma doença que,
antes do aparecimento dos antibióticos e de melhores condições sanitárias,
representava uma das mais graves ameaças para as populações.
A dimensão humana da epidemia foi depois
aprofundada pelas intervenções dos historiadores, Dra. Lúcia Moura e Dr.
Moura Brito, que analisaram os seus efeitos para além da vertente clínica.
Foram recordadas as dificuldades sociais vividas pelas famílias, o impacto
económico sobre uma comunidade fortemente dependente da indústria e do
comércio, as medidas administrativas adotadas para tentar conter o surto e o
contexto político e institucional de Portugal na década de 1920. A epidemia
foi, assim, apresentada não apenas como um acontecimento sanitário, mas como um
fenómeno que alterou profundamente a vida quotidiana de Loriga.
Na sua intervenção, o Eng. Eduardo Ambrósio
destacou a qualidade da investigação e da construção literária da obra,
considerando que esta constitui um contributo relevante para a preservação da
memória histórica do concelho e da região. Dirigindo-se aos representantes
institucionais presentes, lançou igualmente o desafio para que o livro mereça
uma divulgação mais ampla, defendendo que o seu valor histórico e cultural
justifica um maior reconhecimento público. Entre as propostas apresentadas,
salientou mesmo a pertinência de ser ponderada uma edição especial da obra, de
forma a reforçar a sua divulgação e a perpetuar a memória dos acontecimentos
que marcaram Loriga em 1927.
Na intervenção da Vereadora da Cultura da
Câmara Municipal de Seia, Dra. Teresa Pereira, foi sublinhada a importância
de iniciativas culturais desta natureza para a valorização da história e da
identidade do concelho. A responsável destacou que a cultura constitui um dos
pilares da projeção do município e reafirmou o compromisso da Câmara Municipal
em apoiar eventos que promovam o património histórico e cultural local.
Manifestou ainda disponibilidade para colaborar na divulgação da obra e da
memória da epidemia de 1927, incentivando a realização de apresentações,
encontros e outras iniciativas em escolas, bibliotecas e espaços culturais do
concelho, contribuindo para aproximar as novas gerações deste importante
episódio da história regional.
Na sua intervenção, J. da Silva Amaro
explicou o percurso de investigação que deu origem ao livro, desenvolvido ao
longo de vários anos através da consulta de documentação histórica, imprensa da
época, arquivos e testemunhos que permitiram reconstruir um dos episódios mais
dramáticos da história local.
O autor salientou que a publicação surge num
momento particularmente simbólico, antecedendo o centenário da epidemia, que
será assinalado em 2027.
Mais do que recordar um episódio trágico, afirmou,
o objetivo da obra é impedir que a memória coletiva se desvaneça com o passar
das gerações.
“As comunidades vivem da sua memória. Quando
esquecem o seu passado, perdem uma parte daquilo que são. Este livro pretende
preservar a memória daqueles que sofreram, daqueles que combateram a doença e
daqueles que, muitas vezes de forma silenciosa, permitiram que Loriga
sobrevivesse a um dos períodos mais difíceis da sua história.”
Ao longo da apresentação foi igualmente destacado
que o livro combina duas dimensões complementares. A primeira assenta numa
investigação histórica rigorosa, sustentada em documentação e fontes primárias.
A segunda desenvolve uma narrativa histórica que cruza personagens reais com
personagens ficcionadas, procurando aproximar o leitor da realidade humana
vivida durante aqueles meses de sofrimento, medo e esperança.
Após o encerramento da sessão, seguiu-se um
prolongado momento de convívio, durante o qual o autor autografou exemplares da
obra e conversou com os leitores, num ambiente marcado pela proximidade e pelo
interesse suscitado pelo tema.
Com O Inverno do Tifo – Loriga 1927, J.
da Silva Amaro acrescenta mais um importante contributo para a
historiografia local, recuperando um episódio que marcou profundamente a
comunidade loriguense e oferecendo às gerações presentes e futuras um
testemunho rigoroso sobre uma das páginas mais dramáticas da sua história.
A proximidade do centenário da epidemia confere à
publicação um significado ainda mais especial, transformando esta obra não
apenas num livro de história, mas também num exercício de memória coletiva e de
homenagem a todos aqueles que viveram os difíceis meses do inverno de 1927. As
intervenções dos vários participantes convergiram, aliás, numa ideia comum:
preservar a memória do passado é um dever para com as gerações futuras, e a
cultura desempenha um papel essencial na construção dessa consciência coletiva.








